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É ciúme ou é inveja?

Nem sei como começar esse texto. Passa um filme na minha cabeça e eu sinto RAIVA.

Raiva pelo quanto esse mundo é injusto pra nós mulheres, raiva pelo meu parceiro ter tido (até hoje) mais sorte na não monogamia, raiva por eu ter sido sempre tão fechada ou reprimida em minha sexualidade e por não ter me permitido viver experiências interessantes em vários momentos da minha vida.

Raiva por eu tentar ser cuidadosa pra não machucá-lo e me privar de fazer as coisas que eu quero…. e aí quando ele vai lá e faz as coisas que ele quer, o quê eu sinto?

INVEJA!

Putz, é foda admitir isso.

Levei uns bons meses de sofrência na terapia pra entender que o meu ciúme tinha raiz ali na inveja que eu sentia dele. Muita inveja por ele estar vivendo o que eu queria viver, por ele ter encontrado uma pessoa interessante, por ele se sentir desejado, por estar se divertindo, empolgado, apaixonado….

E eu, pô? Eu que nem tinha ciúmes… (como diz a Andréa Benetti rs)

Me vi ali remoendo cada pequena aventura dele. Sua conexão “cósmica” com a crush, a ENR correndo solta, ele nem queria, ele resiste até hoje se dizer não mono, ele disse que entrou na NM “só por mim”, eu ali desempregada por uns anos porque mudei de cidade por causa dele, por causa da carreira dele, quando consigo um emprego entra a pandemia eu volto pra amargura da dona de casa integral ainda por cima sem o respiro do tempo que as crianças ficavam na escola… minha vida virou o caos, e eu achava que não podia piorar mais, o que acontece?

Piorou bastante. Porque não podia ter um pior momento pra ele se apaixonar.

Eu volto pra vida de mãe zumbi e ele começa a viver uma nova paixão.

Que grande merda hein? rsrs Agora eu rio. Rio de mim e do meu desespero. Tentando pedir pra ele ir com calma, pra ele esperar, pra ele não fazer nem assim nem assado, tentando ver um jeito pra eu me sentir mais confortável mas a real é que eu só tenho o controle sobre mim, sobre os meus sentimentos. E mergulhar na amargura e no ressentimento (ou seja, na INVEJA) não estava me ajudando. Estava me destruindo e destruindo nossa relação.

Eu sei que algumas de vocês vão ler isso e vão tomar minhas dores (brigada manas), e vão pensar: "poxa Adê, isso é injusto… você não merecia isso, manda esse hômi se fu…" kkkk

E eu concordo. Mas o que eu ia fazer? Proibir ele? Pedir pra ele parar? Fazer um inferno na vida dele? (o que de fato eu fiz um pokinho rsrs) Exigir que fechássemos a relação? Sendo que eu propus a abertura, sendo que eu quero ser livre e viver minhas paixões/conexões/relações quando eu bem desejar? E se eu exijo que ele termine depois eu fico com esse débito e quando ele se incomodar vou ter que terminar uma relação também?

Não, eu não podia fazer isso.

Eu tava na lama e é só na lama que a gente aqui (áries será?) aprende.

Na terapia tentando entender que ciúme era esse, ela me questionava: "quais são seus medos?"

E eu sei lá! Eu não entendia bem, parece que eu não tinha tanto medo de perdê-lo porque já vinha construindo minha autonomia e já tínhamos planos de morar separados e eu sabia que isso envolveria um grande risco dele (tendo uma forte tendência a ser mono), conhecer alguém e se envolver loucamente e decidir que então tentaria a vida mono com ela etc… mas isso não me causava medo mais.

Era comparação? Competição? Bom sim um pouco, a moça era mais nova, linda, gostosa, (e eu aqui com tantas neuras com o corpo), mas nem tanto, não era algo que me perturbava. Essa parte me parecia também sob controle rs.

O que era então gzuis? Qual era meu medo, meu incômodo?

A maldita da INVEJA.

Ele estava tendo, estava vivendo, o que eu queria viver. E eu estava no meu pior momento. Ali no fundo do poço mesmo. Sem trabalho, sem rede de apoio, me sentindo um robô andando pela casa cumprindo tarefas domésticas, enfim, péssimo timing, mas de novo, que controle eu tenho? Vou ficar me martirizando, me remoendo, lamentando o quanto o mundo é injusto, me afundando no papel de vítima e fazendo da vida dele um inferno porque eu não estava feliz?

A inveja pra mim é o sintoma de uma sensação de injustiça. De se sentir injustiçada pelo outro ter algo que você gostaria de ter, você gostaria de estar ali no lugar do outro, mas não, não é a sua vez e você se revolta… contra algo, geralmente esse outro. Mas é realmente o outro que comete essa injustiça contra você? O outro vive a vida dele ou faz as escolhas dele com a intenção de te ferrar e te deixar nesse lugar injusto??

Chegou uma hora que pensei: preciso sair disso, não dá mais pra eu ficar nesse lugar, será que se eu quiser eu consigo? Não, não consigo. "Como assim não consigo?". Aí eu mesma me senti desafiada com meus pensamentos. Falei pra mim: “não, você vai conseguir amiga, você vai sair dessa fossa, e toda hora que vier o pensamento de raiva, mágoa, ciúme, injustiça, sei lá o quê, você vai tentar dizer pra si mesma que ninguém está tentando te fazer mal de propósito. Que seu parceiro te ama e que ele está vivendo o que você propôs a ele viver. E que se você agora não tá gostando e nem tá achando conveniente seria egoísta impedir ele de viver né? Será que ele só pode viver quando for conveniente pra você amora?”

Oshi, essa voz interna minha me deu um baita sacudido ali pra eu sair do meu lugar de “birra” e tomar tento. "Gente eu amo essa cara, ele é gente boa, ele sofreu muito também junto comigo e acabou se privando de muita coisa, eu cheguei a pedir: “não, só fala com ela uma vez por semana", ele ficou todo feliz e disse: "ok marquei na sexta", e eu: “não, ainda não tô pronta, pode esperar mais uma semana?” e ele me olhava frustrado, oprimido…

Isso não é vida amoras, o mundo não está contra a gente. O nosso ego, as nossas feridas emocionais estão ali mostrando, pedindo pra gente se cuidar…

Eu sei que você quer uma solução, e com dor no coração eu lhe digo que não tenho a solução…. a solução é um caminho muito individual de descobrir seu amor próprio. De entender que você não tem o controle de nada nessa vida. De entender que você tem que deixar a pessoa ir e viver senão você não vai conseguir ir e viver. Você precisa largar, e parar de racionalizar seu ciúme, sua inveja, seja lá o que for.

Quanto mais você segura o outro, mais você sofre.

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Conscientização sobre a Não Monogamia Ética organizando conteúdo e espaços de reflexão e conexão entre as pessoas que se identificam com o tema.

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Reflexões e Conexões NãoMono

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