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A linha tênue dos limites

O trabalho do outro que não é meu

Ele quer que eu esqueça. Ele está ressentido e se ele não acessar suas reais necessidades e conseguir expressá-las pra mim, o que é provável de acontecer?

Ele vai me culpar. Ele vai criar (inconscientemente) toda uma situação para que eu esqueça, ou pra que eu faça algo bem sem graça e insignificante pra ele poder reclamar e me culpar depois e se confortar pensando o quanto sou ruim e como ele é uma pobre vítima desse universo cruel.

Se meu parceiro não estivesse fazendo terapia, num profundo processo de autoconhecimento, ele nunca teria dado espaço para que aquele ‘sentimento’ se tornasse consciente. O sentimento de estar ressentido com algo, de precisar de atenção, e de carinho talvez? O que significa o desejo de que eu esqueça seu aniversário para depois poder me culpar? Como ele pode sentir certo conforto nisso? São questões profundas que ELE PRECISA ACESSAR.

Porque se ele não acessar essas questões, ele não entenderá suas reais necessidades e não conseguirá expressá-las pra mim. Ele ficará angustiado porque ninguém entende como ele se sente (mas nem ele mesmo sabe o que está errado), e essa angústia vai se transformar em amargura quando ele cria situações confusas ou expressa emoções de forma distorcida e atrapalhada.

Gabor Maté diz que existe uma “raiva saudável”, que a raiva precisa ser expressada de alguma forma (acho que ele faz uma diferenciação entre raiva e ódio). Mas pra mim o problema é que deve existir uma medida. Quando ela se torna ódio, e se expressa através de agressão e violência, ela é muito destrutiva. Ela machuca demais as pessoas e as relações e nem tudo será possível reparar.

E nesse processo de frustração e raiva que a pessoa confusa sente, onde será mais provável dela “descontar” essa raiva? Em um espaço onde ela tem essa abertura, onde ela se sente confortável, com pessoas que lhe escutam e “aguentam o tranco”, ou seja: nas pessoas que ela ama. É isso mesmo que estou dizendo e que vocês já sabem muito bem: as pessoas que amamos geralmente são nossos “sacos de pancada”.

Como parcerias, nós também precisamos fazer o nosso trabalho pessoal de nos proteger. Esse trabalho de autocuidado passa por um processo de se olhar, de se amar, de estar confiante de que você está fazendo O SEU TRABALHO. E de que o trabalho do outro NÃO É O SEU TRABALHO. E de que as angústias e frustrações, a raiva e os traumas do outro não são seus.

É muito fácil querer pegar tudo pra si, principalmente quando vemos a pessoa que amamos desesperadamente ‘jogando’ suas mágoas sobre nós. Nós queremos salvá-la, nós queremos cuidar disso, nós queremos ver a pessoa bem, para assim talvez sobrar espaço pra curtir a relação e sentir o prazer que buscamos juntos….

Mas tente se lembrar: sem sua máscara de oxigênio você morre e não consegue salvar ninguém!

Na minha situação, eu estava tentando ser atenciosa, e preparar algo especial pra ele. Ainda não havia um ‘erro’ meu ou um trabalho que eu precisava fazer. É claro que não sou perfeita. É claro que cometo erros. Pode ser que tenha coisa aí pra mim, nós conversamos depois e eu entendi a minha parte. Eu preciso trabalhar menos e dar mais atenção a ele e à família. Mas mesmo assim. Nós dois sabemos que o “buraco é mais embaixo”, que existe algo profundo ali que ele precisa cuidar, porque esse lugar de “sentir conforto quando as pessoas se sentem culpadas” é um lugar que sempre volta na vida dele, é uma ferida profunda que ainda está aberta, e se ele não cuidar dessa ferida ele vai continuar girando em círculos e machucando a si mesmo e às pessoas em volta.

O limite então é analisar com cuidado: de quem é o trabalho a ser feito? E se esse trabalho não for seu, você sai da culpa e entra no cuidado. Você coloca a máscara de oxigênio e toma seu ar, e não fica ali se afogando para socorrer o outro.

O mais bonito disso tudo é que ninguém tá deixando ninguém ‘na mão’. Quando percebo que o trabalho não é meu eu coloco meu limite, mas isso não quer dizer que eu dou um foda-se para a pessoa que eu amo. Eu saio de um lugar vulnerável de culpada e ofendida para um lugar de tranquilidade e segurança comigo… E ASSIM EU POSSO CUIDAR DELE.

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Conscientização sobre a Não Monogamia Ética organizando conteúdo e espaços de reflexão e conexão entre as pessoas que se identificam com o tema.

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