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A linha tênue dos limites

O trabalho do outro que não é meu

Era quinta feira e o aniversário dele era no domingo. De manhã logo que nos levantamos eu me lembrei e lhe perguntei: “o que você quer de aniversário?” Ele demorou um pouquinho pra responder e disse:

Não quero nada, não precisa me comprar nada.

Ele respondeu com um semblante triste. Eu senti algo ali… mas não sabia o que era. Passa-se alguns segundos e ele diz:

Eu tô sentindo algo estranho, acho que estou decepcionado por você ter lembrado.

Eu perguntei: como assim? e ele disse:

Acho que eu não queria que você lembrasse. Queria que você esquecesse e assim eu me sentiria bem em poder te culpar, dizer que você não se importa. Isso me traz conforto.

Eu olhei pra ele em choque. Mas nem tanto. Eu já SENTIA tudo isso. Eu já sentia a pressão em ter que fazer algo especial, em lhe dar atenção, acho que por isso mesmo fiz a pergunta, pra lhe assegurar de que eu estava lembrando, pra demonstrar que eu estava fazendo um esforço em cumprir a minha parte.

Tentamos conversar um pouco ali, mas não tínhamos tempo nem espaço. A vida em família nos engole. Os filhos acordam, temos que dar atenção, eles fazem mil perguntas e demandas, temos o nosso trabalho e vários compromissos…

Mas essa situação acho que nos traz uma reflexão interessante para nos ajudar a compreender limites. Observando esse diálogo acredito que vocês aí, mais experientes no ‘drama das relações’ já estão prevendo: vai dar merda.

Ele quer que eu esqueça. Ele está ressentido e se ele não acessar suas reais necessidades e conseguir expressá-las pra mim, o que é provável de acontecer?

Ele vai me culpar. Ele vai criar (inconscientemente) toda uma situação para que eu esqueça, ou pra que eu faça algo bem sem graça e insignificante pra ele poder reclamar e me culpar depois e se confortar pensando o quanto sou ruim e como ele é uma pobre vítima desse universo cruel.

(Ufa! Falei! Não é fácil soltar essa. É dolorido pra mim e pra ele, essa pessoa que amo tanto. E sei bem que deve estar doendo aí em vocês também, que podem estar se vendo no meu lugar ou no dele).

Quando, em nossas brigas, eu não me aguento e solto: “é fácil se colocar no lugar de vítima”, isso ofende MUITO ele. E se ofende, se causa raiva e reatividade, é porque tem algo profundo ali.

Já aviso que essa história não tem um final feliz. Eu realmente “esqueci”. Na correria do dia a dia, crianças, trabalho, pandemia, fomos pra casa dos meus pais, eu não consegui tempo pra comprar nada. Em minha defesa rs, eu fiz um bolo bem gostoso no dia, mas acabamos brigando por algum motivo besta (acho que tinha a ver com a hora que íamos partir o bolo, eu queria esperar um pouco pra organizar direito ele queria acabar logo com aquilo) e aí foi a deixa para a “profecia” se realizar.

E o que tudo isso tem a ver com limites?

Se meu parceiro não estivesse fazendo terapia, num profundo processo de autoconhecimento, ele nunca teria dado espaço para que aquele ‘sentimento’ se tornasse consciente. O sentimento de estar ressentido com algo, de precisar de atenção, e de carinho talvez? O que significa o desejo de que eu esqueça seu aniversário para depois poder me culpar? Como ele pode sentir certo conforto nisso? São questões profundas que ELE PRECISA ACESSAR.

Porque se ele não acessar essas questões, ele não entenderá suas reais necessidades e não conseguirá expressá-las pra mim. Ele ficará angustiado porque ninguém entende como ele se sente (mas nem ele mesmo sabe o que está errado), e essa angústia vai se transformar em amargura quando ele cria situações confusas ou expressa emoções de forma distorcida e atrapalhada.

Dessa forma, uma questão bem pessoal, que precisava de um olhar cuidadoso, acaba se tornando um grande problema da relação, ou da outra pessoa na relação. A linha é bem tênue aí pra entender o que é meu e o que é do outro. O problema que era do outro pode facilmente se tornar o meu problema (porque ele me acusa de ser o problema), e quando esse problema que nem era meu agora se apresenta como meu (como minha insuficiência e culpa), eu passo a me proteger, e passo a atacar pra me proteger…

E nesse ponto meus caros, já existe MUITA RAIVA, e é muito provável que ninguém vai conseguir ver a carência, ou a necessidade por trás desse cenário caótico.

E quando nos sentimos carentes e angustiados, ofendidos e culpados, e não conseguimos entender nem expressar direito nossas emoções, a RAIVA vem pra tentar dar um jeito na coisa, pra tentar “quebrar tudo” e desestabilizar as estruturas e ver se dá um jeito nessa porra. (rs)

Gabor Maté diz que existe uma “raiva saudável”, que a raiva precisa ser expressada de alguma forma (acho que ele faz uma diferenciação entre raiva e ódio). Mas pra mim o problema é que deve existir uma medida. Quando ela se torna ódio, e se expressa através de agressão e violência, ela é muito destrutiva. Ela machuca demais as pessoas e as relações e nem tudo será possível reparar.

E nesse processo de frustração e raiva que a pessoa confusa sente, onde será mais provável dela “descontar” essa raiva? Em um espaço onde ela tem essa abertura, onde ela se sente confortável, com pessoas que lhe escutam e “aguentam o tranco”, ou seja: nas pessoas que ela ama. É isso mesmo que estou dizendo e que vocês já sabem muito bem: as pessoas que amamos geralmente são nossos “sacos de pancada”.

E o quão injusto é isso?

Pois é. Aí é que entram os limites.

Como parcerias, nós também precisamos fazer o nosso trabalho pessoal de nos proteger. Esse trabalho de autocuidado passa por um processo de se olhar, de se amar, de estar confiante de que você está fazendo O SEU TRABALHO. E de que o trabalho do outro NÃO É O SEU TRABALHO. E de que as angústias e frustrações, a raiva e os traumas do outro não são seus.

É muito fácil querer pegar tudo pra si, principalmente quando vemos a pessoa que amamos desesperadamente ‘jogando’ suas mágoas sobre nós. Nós queremos salvá-la, nós queremos cuidar disso, nós queremos ver a pessoa bem, para assim talvez sobrar espaço pra curtir a relação e sentir o prazer que buscamos juntos….

Mas tente se lembrar: sem sua máscara de oxigênio você morre e não consegue salvar ninguém!

Na minha situação, eu estava tentando ser atenciosa, e preparar algo especial pra ele. Ainda não havia um ‘erro’ meu ou um trabalho que eu precisava fazer. É claro que não sou perfeita. É claro que cometo erros. Pode ser que tenha coisa aí pra mim, nós conversamos depois e eu entendi a minha parte. Eu preciso trabalhar menos e dar mais atenção a ele e à família. Mas mesmo assim. Nós dois sabemos que o “buraco é mais embaixo”, que existe algo profundo ali que ele precisa cuidar, porque esse lugar de “sentir conforto quando as pessoas se sentem culpadas” é um lugar que sempre volta na vida dele, é uma ferida profunda que ainda está aberta, e se ele não cuidar dessa ferida ele vai continuar girando em círculos e machucando a si mesmo e às pessoas em volta.

O limite então é analisar com cuidado: de quem é o trabalho a ser feito? E se esse trabalho não for seu, você sai da culpa e entra no cuidado. Você coloca a máscara de oxigênio e toma seu ar, e não fica ali se afogando para socorrer o outro.

O mais bonito disso tudo é que ninguém tá deixando ninguém ‘na mão’. Quando percebo que o trabalho não é meu eu coloco meu limite, mas isso não quer dizer que eu dou um foda-se para a pessoa que eu amo. Eu saio de um lugar vulnerável de culpada e ofendida para um lugar de tranquilidade e segurança comigo… E ASSIM EU POSSO CUIDAR DELE.

Esse processo é mútuo, um dia o trabalho é meu e eu preciso de cuidado, outro dia o trabalho é do outro e eu posso acolher e cuidar dele. É preciso revezar nesses papéis, para que a relação se mantenha saudável. ❤

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Conscientização sobre a Não Monogamia Ética organizando conteúdo e espaços de reflexão e conexão entre as pessoas que se identificam com o tema.

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Reflexões e Conexões NãoMono

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