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E quando me sinto traída… e o outro nem sabe?

Texto de Ade Monteiro

Uma nova paixão apareceu na vida do meu parceiro.

A primeira foi um baque imenso e eu achei que já estava “vacinada” contra o ciúme e todos os desconfortos e tentativas de controle….

Mas não.

Quando aconteceu de novo de início eu estava super de boas, mas a coisa foi se intensificando e mais uma vez, acompanhar sua empolgação de perto me machucava muito. Eu sentia que ele não estava presente, por mais que ele estivesse. Ele me dava carinho e atenção, nossa interação afetiva e sexual não mudou, mas eu estava, novamente, em crise, engatilhada com qualquer atitude “suspeita” dele.

Tentei me conter, já contei num dos textos sobre perceber meu limite quanto à nossa comunicação…

Até que um dia, como as crianças estavam nos avós, saí do escritório onde atendo e fui atender na sala. Terminei o atendimento e percebi que em cima da mesa estava um caderno dele, onde ele faz desenhos e anotações pessoais.

E num impulso eu abri o caderno. Como a lei de Murphy não falha rs, eu abri numa página onde ele relatava entre outras coisas, algo assim:

“Hoje a xxxx me disse “eu te amo” pela primeira vez…
Eu não consigo conter minha felicidade
… eu nunca senti um amor assim…”

Aquilo veio como uma facada no meu coração.
E eu me senti traída. Muito traída.

E não havia nenhum acordo entre nós sobre um limite na intensidade das relações que tínhamos, ou sobre poder dizer ou não certas palavras, de forma alguma.

Ele é claro, não teve intenção e na verdade nem sabia que tinha 'me traído'. A traição estava em mim, na sensação de ter sido injustiçada, uma sensação do outro ter me 'prometido' algo e decidiu dar esse algo à outra pessoa. É um sentimento maluco, bem estranho, mas real.

Fazia poucos meses que estavam conversando e haviam se encontrado uma vez. Num lugar de muita vulnerabilidade (de novo!), vou compartilhar com vocês o que se passou em minha mente:

Eu lembrei que fomos dizer “eu te amo” um ao outro com quase 1 ano de relacionamento. E isso me machucou. Eu pensei que minha relação com ele no início não foi todo esse “encantamento”, essa paixão avassaladora, foi algo bem gradual, uma conquista, talvez mais da minha parte… e isso me machucou também. Sentir que talvez ele nunca tenha se apaixonado por mim dessa forma, doeu.

Percebi que a frase “Eu te amo” pra mim é muito forte, que eu diria somente se estivesse numa relação já bem séria, na qual tenha havido uma construção da intimidade pra chegar nesse ponto de uma 'conexão intensa' que seria um “eu te amo”. Mas eu compreendo que essa é a minha visão da coisa, e com certeza uma visão muito pautada no amor romântico.

Pra mim essa frase tem um significado muito especial, e eu sinto que só conseguirei dizer pra alguém que tem um significado imenso em minha vida, alguém que eu sinta que tem um “compromisso” comigo, no sentido de um cuidado, respeito e admiração, alguém com quem eu possa contar.

Então o fato de saber que ele disse isso pra alguém me magoou muito.
E pior ainda, saber que ele nunca sentiu um amor assim?
Como assim? E o amor dele por mim?
O quão injusto é isso?
Eu aqui que doei minha vida por ele (sou dramática! rs)
O nosso amor fica em segundo plano agora?

Eu gostaria de saber de vocês: dizer “eu te amo” para seus afetos é banal, é lugar comum, ou é algo muito especial? Fiquei confusa sobre isso e comecei a questionar as pessoas à minha volta… O que significa “eu te amo pra você?”. Perguntei à minha terapeuta, à amigas não mono, até à uma paciente um dia questionei se ela dizia “eu te amo” pro afeto dela. E quando ela me disse que sim, eu senti raiva dela, eu achei que ela estava sendo injusta com o parceiro dela… ou seja, projeção rolando solta e é claro, guardei esse julgamento pra mim.

Mas na real eu saquei que ninguém dava toda aquela importância que eu dava para a tal frase… e tive que lidar com a minha ingenuidade, com toda a minha idealização do amor e da nossa relação… Tive que ir fundo no meu TRABALHO PESSOAL e fazer aquela faxina da desconstrução dos meus ideais românticos… do lugar da prioridade na vida dele, da “pessoa mais especial” que eu sempre fui e que sempre havia sonhado ser.

Foi um sufoco sair desse lugar. Se eu não sou prioridade, se eu não sou a pessoa mais importante da vida dele, se agora outra pessoa tem uma importância imensa e se torna seu grande amor, onde eu fico? Como posso viver assim, nesse lugar incerto de não saber quem eu sou na vida do outro?

Aquele lugar de antes era tão bom, tão lindo, tão confortável… onde fui me enfiar??
Eu queria aquele lugar de volta.
Não tinha volta. Ele estava apaixonado e ali sem chance de eu retomar meu lugar de ‘único amor’.

Esse foi o buraco negro que eu mergulhei… e já falei pra vocês dele.

Eu fiquei mal. Eu chorei e lutei comigo mesma. Eu tive que elaborar o luto de uma relação idealizada que já não existia mais.

Minha conclusão foi essa: de que não tenho garantia de nada, de que só posso me garantir.

De que eu precisava me trabalhar internamente, fortalecer meu amor próprio pra não entrar nessa onda da comparação, pra não precisar ser prioridade, porque isso não importa. O que importa é o que eu significo pra ele, o que ele significa pra mim, o que construímos juntos, o que trocamos um com o outro é o que importa.

Eu sou definitivamente um amor na vida dele, ele demonstra isso todos os dias, porque vou me torturar preferindo olhar para o que ele sente por outra pessoa? Gosto do que a Anne Lamott diz num Podcast com o Tim Ferriss: ela sugere que a gente desligue a “K-Fucked Radio”, essa rádio que fica tocando em nossa cabeça só pra nos ferrar. Ela diz, liga o “Self Love Radio”, a rádio do auto amor (com a voz das pessoas que você ama) e diz pra si mesma o que tem de positivo na sua vida, na sua relação.

Eu tô tentando fazer esse exercício e aumentar o volume da voz do meu amor próprio:

“eu acolho minha sensação de traição e injustiça, mas ela não é real. Percebo que sofro pelo fim de algo que nem sei descrever: um sonho, uma relação idealizada e co-dependente talvez? Eu sou gentil comigo e me permito elaborar esse luto, sentir a dor da frustração, de ter que desconstruir uma idéia de quem eu era e de quem meu parceiro era ali naquela dinâmica, eu compreendo que preciso ter calma e dar o tempo que minha mente e meu corpo precisa para processar tudo isso… eu acredito que vou chegar onde quero, um lugar de autonomia e muito amor compartilhado…”

E o amor pode acontecer de tantas formas…

O amor que ele sentiu foi algo novo e legítimo e realmente, ele nunca tinha sentido algo assim. Assim como eu posso vir a ter uma paixão avassaladora e sentir coisas que nunca senti antes. Sei que ainda tenho muito do “romântico” em mim… Mas eu insisto em acreditar que quando tem desejo, quando tem amor, não pode ser errado…

Não foi traição.

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Conscientização sobre a Não Monogamia Ética organizando conteúdo e espaços de reflexão e conexão entre as pessoas que se identificam com o tema.

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Reflexões e Conexões NãoMono

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