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Sobre MC Kevin, a Monogamia Tóxica e outras violências…

Texto de Ade Monteiro e Susan Katz

A maioria de vocês já ouviu sobre o trágico acidente que levou à morte de MC Kevin. Em resumo, ele estava com um amigo e uma modelo quando caiu da varanda de um quarto de hotel no Rio de Janeiro, mesmo hotel em que estava hospedado com sua companheira. O que chegou à nós através da mídia foi que no momento em que ele estaria traindo a parceira, Mc Kevin teria ficado preocupado em ser surpreendido, e tentou pular para o andar de baixo. Nessa tentativa, ele escorregou e não resistiu à queda vindo a falecer de traumatismo craniano.

Um debate se levantou em meio a comunidade não mono.

Alguns fizeram uma conexão direta entre o ocorrido e a dinâmica tóxica monogâmica tão legitimada em nossa sociedade, atentando para os potenciais riscos atrelados à monogamia, inclusive o risco de morte: seja por exemplo ao tentar ‘fugir’ do flagrante da infidelidade — como ocorreu com Kevin; seja ao ‘desobedecer’ qualquer acordo suposto, implícito e/ou imaginário — como ocorre com centenas de mulheres todos os dias no Brasil, vide os índices de feminicídio.

Este levantamento gera uma reflexão válida da monogamia como conceito, sobretudo no que diz respeito à predisposição a reprimir diálogos abertos sobre desejo e ao fato de se valer de parâmetros sociais pré-definidos e subentendidos.

É um pacote fechado obrigatoriamente abraçado por aqueles que o aceitam, que nem sempre leva em consideração todas as necessidades e desejos dos envolvidos.

A imagem idealizada/romantizada na monogamia do casal perfeito que se completa e só tem olhos um para o outro é frequentemente irreal e inatingível. Para muitos, manter um status socialmente aceitável significa uma escolha angustiante entre a insatisfação ou a traição. Kevin escolheu a 2ª opção. E quem pode julgar sua escolha? Quem se propõe a defender com unhas e dentes um sistema que não funciona para mais de 50% dos seus adeptos? (Estatísticas sobre traição apontam que de 50 a 70% das pessoas traem)*.

Esse sistema relacional, a monogamia, é um modelo cristalizado e arcaico — que está aí há milênios, embora tenhamos avançado e desenvolvido em tantas áreas e em tantos aspectos — e se mantém sem nos apresentar alternativas.

O questionamento que fica (para defensores da monogamia) é o seguinte:

Seria possível a Kevin curtir com os amigos e transar com outras mulheres? (Essas não seriam necessidades absurdas para um jovem de 23 anos, não é mesmo?). Seria possível para ele estar num relacionamento amoroso e honesto e continuar fazendo essas outras “coisas” que a maioria de nós quer continuar fazendo? O mesmo seria possível para sua esposa?

Nas respostas à esses questionamentos estão as possíveis ‘alternativas’ para esse sistema falho, mas parecem haver poucos interessados em buscar respostas, mesmo que a falta delas represente a morte de tantas mulheres e até mesmo de homens, como no caso do Kevin.

Embora seja urgente e necessário problematizar o sistema único relacional da monogamia, é importante considerar uma série de outras questões que desempenham um papel importante nesse caso. O contexto social no qual vivemos exerce uma grande influência sobre quem nos tornamos, e há uma enorme pressão, principalmente em figuras públicas, para que se cumpra um ‘papel’ esperado socialmente, nesse caso, o modelo de homem cis hétero com íngreme ascensão social e alto poder aquisitivo.

Por um lado, espera-se que ele caiba nessa caixa de homem honesto e fiel à mulher e à família, que retribui à comunidade de onde saiu. Ao mesmo tempo o público quer ver ali o estilo de vida apresentado em suas músicas, do garanhão sedutor e pegador, que bebe e usa drogas. Consideremos, portanto, a consequente pressão para ocupar esse espaço (ainda que fique claro que nada justifica as escolhas tomadas).

Em última análise, tratar a monogamia como principal razão do desenvolver dos fatos que levaram ao acidente envolvendo MC Kevin é uma análise superficial que não leva em consideração fatores importantes pro caso em questão, como: pressão social, valores e crenças dos envolvidos, fatores sociais externos de status e ostentação, masculinidade tóxica, entre outros.

Questionemos a monogamia, sem esquecer que somos seres multifacetados, e portanto, interseccionais.

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Conscientização sobre a Não Monogamia Ética organizando conteúdo e espaços de reflexão e conexão entre as pessoas que se identificam com o tema.

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Reflexões e Conexões NãoMono

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